Refugiado afegão foge da guerra e morre no trânsito de Goiânia
Noorulhuda Majidi, de 19 anos, estava de bicicleta na Vila Canaã quando foi atingido por uma caminhonete; motorista foi preso em flagrante, teve a prisão convertida em preventiva e é investigado pela Delegacia de Crimes de Trânsito de Goiânia
O jovem afegão Noorulhuda Majidi, de 19 anos, teve morte cerebral confirmada dois dias depois de ser atropelado por uma caminhonete na Vila Canaã, em Goiânia. Ele estava de bicicleta quando foi atingido por um motorista que, segundo a Polícia Militar, apresentava sinais de embriaguez e fugiu do local sem prestar socorro.
Noorulhuda estava internado em estado grave no Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira, o Hugol, desde quarta-feira, 13 de maio de 2026. A morte cerebral foi confirmada pela unidade, e a família informou que o corpo deveria ser liberado pelo Instituto Médico Legal ainda nesta sexta-feira, 15 de maio.

A história do jovem torna a tragédia ainda mais dolorosa. De nacionalidade afegã, Noorulhuda morava em Goiânia com os pais e quatro irmãos. A família se refugiou no Brasil depois de deixar o país de origem com auxílio de uma organização não governamental. Ele escapou de um cenário de guerra e instabilidade, mas acabou vítima da violência cotidiana do trânsito brasileiro.
Câmeras de segurança registraram o momento em que o ciclista foi atingido e arremessado pela força do impacto. Segundo a reportagem, o motorista da caminhonete foi preso pela Polícia Militar por embriaguez ao volante e por fugir sem prestar socorro. Ele foi localizado pouco depois em um condomínio no mesmo setor, com auxílio de tecnologia de inteligência artificial usada para identificar o veículo.

A caminhonete apresentava marcas compatíveis com a batida. Dentro do veículo, policiais encontraram latas e garrafas de cerveja espalhadas. Em reportagem anterior sobre o caso, o Mais Goiás informou que o teste do bafômetro registrou 0,81 mg/l de álcool, índice apontado como muito acima do limite permitido por lei.

O motorista, de 45 anos, foi preso em flagrante. Na audiência de custódia, realizada na quinta-feira, 14 de maio de 2026, a prisão foi convertida em preventiva. O caso é investigado pela Delegacia de Crimes de Trânsito de Goiânia, a DICT.
A morte de Noorulhuda não pode ser tratada como mais uma estatística fria. Por trás do boletim de ocorrência havia um jovem de 19 anos, uma família refugiada, uma bicicleta, uma rotina interrompida e um futuro que havia sido reconstruído longe do Afeganistão. A tragédia mostra como a imprudência no trânsito pode destruir em segundos aquilo que uma família levou anos para proteger.
O caso também reacende a cobrança sobre embriaguez ao volante. Dirigir depois de beber não é descuido pequeno, nem erro comum de fim de noite. É uma escolha que transforma veículo em arma e coloca pedestres, ciclistas, motociclistas e outros motoristas em risco. Quando há fuga sem socorro, a violência se aprofunda: além do impacto, há abandono.
Para ciclistas, a vulnerabilidade é extrema. Diferentemente de quem está dentro de um carro, quem pedala não tem carroceria, airbag ou estrutura de proteção. Uma batida em alta velocidade pode ser fatal. Por isso, a responsabilidade de quem conduz veículos maiores deve ser ainda maior, especialmente em vias urbanas onde há circulação de trabalhadores, estudantes, entregadores e moradores.
Noorulhuda era um jovem estrangeiro tentando viver em paz com a família em Goiânia. A morte dele atravessa a pauta policial e entra no campo humano. Ela fala de acolhimento, refúgio, trânsito, impunidade, álcool e responsabilidade pública. Também obriga a cidade a olhar para uma pergunta incômoda: quantas vidas ainda serão perdidas para motoristas que insistem em beber e dirigir?
A investigação agora deve esclarecer a dinâmica completa do atropelamento, a velocidade do veículo, a conduta do motorista antes e depois da batida e as responsabilidades criminais pelo caso. A prisão preventiva indica que a Justiça entendeu haver elementos para manter o investigado detido enquanto o processo avança.
A família de Noorulhuda atravessou continentes para escapar da insegurança. Em Goiânia, encontrou outra forma de violência, menos distante e mais cotidiana: a mistura de álcool, volante e fuga. No fim, a morte do jovem deixa uma mensagem dura para a cidade: trânsito não perdoa imprudência, e nenhuma família deveria enterrar um filho por causa de uma escolha criminosa.



