Clínica clandestina virava cativeiro de dor em Aparecida, diz polícia

Dois homens foram presos em Aparecida de Goiânia suspeitos de operar uma clínica de reabilitação clandestina com indícios de tortura, maus-tratos, cárcere privado, sedação forçada e uso irregular de medicamentos controlados
Uma operação da Polícia Civil de Goiás fechou uma clínica de reabilitação clandestina no Jardim Buriti Sereno, em Aparecida de Goiânia, onde 64 pessoas foram resgatadas em meio a indícios de tortura, maus-tratos, cárcere privado e sedação forçada. Dois homens foram presos suspeitos de comandar o funcionamento irregular do local.
A ação foi realizada pelo Grupo Especial de Investigações Criminais de Aparecida de Goiânia, com apoio da Vigilância Sanitária municipal e da Polícia Técnico-Científica. Segundo a investigação, os internos eram mantidos em condições degradantes e submetidos a um protocolo de agressões físicas e psicológicas.
De acordo com o delegado Sérgio Henrique, os relatos apontam estrangulamentos, torções de membros, ameaças constantes e aplicação de substâncias sedativas sem consentimento. A suspeita é que os medicamentos fossem usados para conter e silenciar internos, sem acompanhamento médico adequado.

Durante a fiscalização, as equipes encontraram porções de maconha e cocaína, medicamentos psicotrópicos controlados sem prescrição médica, parte deles fora das embalagens originais, além de seringas com agulhas já utilizadas. Também foram apreendidos objetos que, segundo a Polícia Civil, poderiam ter sido usados nas práticas violentas, como um cano de ferro e cordas.
A situação sanitária do imóvel também chamou a atenção dos agentes. A Vigilância Sanitária encontrou alimentos estragados, com sinais de deterioração, além de dormitórios superlotados e condições insalubres. A Polícia Civil informou ainda que não havia médico ou profissional de saúde habilitado no local, apesar da presença de medicamentos controlados e da prática de sedação.
Os dois presos ocupavam, segundo a investigação, posições de comando dentro do esquema. Um deles é apontado como responsável direto pelas agressões e torturas contra internos. O outro seria o proprietário do estabelecimento e já teria administrado outras clínicas clandestinas no município, anteriormente interditadas pelas autoridades.
A audiência de custódia foi realizada na quinta-feira, 14 de maio de 2026, e a Justiça converteu a prisão em flagrante dos suspeitos em prisão preventiva. Eles deverão responder por tráfico de drogas, tortura, uso de medicamento sem registro, maus-tratos e cárcere privado.

O delegado afirmou que esta seria a segunda vez que prende o proprietário da clínica. A primeira teria ocorrido em outra unidade irregular mantida por ele em Hidrolândia. Segundo a Polícia Civil, a prisão preventiva foi pedida para evitar reincidência.
A diretora da Vigilância Sanitária de Aparecida, Naiara Andrade, disse que a unidade já havia apresentado histórico positivo em inspeções até o ano passado. Segundo ela, o cenário mudou após troca de proprietários, que acabaram presos na operação. A diretora afirmou que os fiscais encontraram o local em estado diferente do habitual.
O caso expõe uma ferida grave: pessoas em tratamento contra dependência química ou em situação de sofrimento psíquico não podem ser tratadas como prisioneiras. Reabilitação exige acompanhamento profissional, equipe qualificada, ambiente seguro, respeito à dignidade humana e fiscalização permanente. Quando o cuidado vira castigo, o tratamento deixa de existir e abre espaço para crime.
A investigação também acende alerta para famílias que, muitas vezes em desespero, buscam ajuda para parentes dependentes químicos e acabam entregando pessoas vulneráveis a instituições sem estrutura, sem equipe habilitada e sem autorização adequada. Antes de internar alguém, é essencial verificar se a unidade possui alvará, responsável técnico, profissionais de saúde, autorização sanitária e histórico de funcionamento regular.
Clínicas clandestinas costumam se esconder atrás de discursos de disciplina, cura rápida ou isolamento necessário. Mas nenhum tratamento autoriza agressão, ameaça, comida estragada, sedação forçada ou privação ilegal de liberdade. O que salva vidas é cuidado técnico. O que destrói vidas é violência disfarçada de recuperação.
O caso agora segue sob investigação. A polícia deve aprofundar a análise dos materiais apreendidos, ouvir vítimas e familiares, verificar a origem dos medicamentos e apurar se há outras pessoas envolvidas no funcionamento da clínica. Enquanto isso, os 64 internos resgatados deixam para trás um local que, segundo a polícia, prometia reabilitação, mas entregava medo.



