MP pede afastamento de alunos de Medicina acusados de intimidar colegas e professores

Parecer do Ministério Público pede que 12 alunos de Medicina da Unifan sejam proibidos de manter contato com denunciantes e afastados do convívio acadêmico; instituição afirma que atuou como intermediadora e adotou medidas administrativas de segurança
O Ministério Público de Goiás pediu medidas cautelares contra 12 estudantes do curso de Medicina do Centro Universitário Alfredo Nasser, a Unifan, em Aparecida de Goiânia. O parecer foi emitido pelo promotor de Justiça Carlos Vinícius Alves Ribeiro, da 12ª Promotoria de Justiça de Aparecida de Goiânia, e assinado em 25 de abril de 2026. A solicitação atende a relatos de alunos e professores que afirmam ter sofrido uma campanha de intimidação, difamação e assédio depois da anulação de provas do curso por suspeita de fraude.
O caso teve origem em dezembro de 2025, quando foram constatadas irregularidades em avaliações do período. Após a reaplicação das provas, 31 alunos foram reprovados, o que teria provocado hostilidade por parte de 12 estudantes citados no procedimento. A apuração menciona ainda ligações ofensivas feitas pelo pai de uma aluna.
A partir das reprovações, professores e estudantes teriam relatado ameaças de processos considerados sem base jurídica, registros em delegacia e até pressões envolvendo possível demissão de docentes. Os 12 alunos foram ouvidos pela autoridade policial e negaram qualquer tipo de perseguição.
No parecer, o promotor afirma que os estudantes ouvidos se limitaram a informar a reprovação dos 31 alunos após a reaplicação do exame, além de relatar que alguns ingressaram na Justiça para tentar obrigar a instituição a revisar notas. Eles também negaram perseguição.
Apesar das negativas, o Ministério Público considerou haver elementos suficientes para pedir medidas de proteção. O relatório aponta que os fatos narrados pelas requerentes foram confirmados por quatro testemunhas que haviam sido aprovadas nas avaliações. O promotor também destacou que, conforme o procedimento, a instituição teria recebido comunicações formais sobre o caso.
Para o MP, as condutas atribuídas aos estudantes podem configurar crimes contra a honra e contra a liberdade individual, previstos no Código Penal. Por isso, o órgão pediu que os alunos identificados sejam proibidos de manter contato com os alunos e professores apontados como vítimas, seja por redes sociais, mensagens, ligações ou por intermédio de terceiros.
O Ministério Público também pediu o afastamento dos estudantes do convívio acadêmico com os denunciantes. Além disso, requereu que a Unifan crie uma sistemática de separação entre as partes no ambiente universitário. O procedimento investigativo deve tramitar em sigilo, e os estudantes foram alertados de que o descumprimento das medidas pode resultar em prisão preventiva.
O ponto central do caso não é apenas a anulação das provas. A gravidade está no que teria ocorrido depois: um conflito acadêmico que, segundo relatos levados ao Ministério Público, teria ultrapassado a discordância sobre notas e chegado a intimidação, difamação, assédio e pressão contra pessoas envolvidas no processo.
Em casos assim, a cautela jurídica é essencial. Os estudantes citados são acusados e investigados, não condenados. Ao mesmo tempo, as denúncias de intimidação precisam ser tratadas com seriedade, especialmente quando envolvem ambiente universitário, professores, alunos e um curso de alta responsabilidade social, como Medicina.
A Unifan, procurada pelo imprensa, informou por meio de seu jurídico que sempre tomou as medidas necessárias para preservar a integridade física e psíquica dos denunciantes dentro das instalações educacionais. A instituição afirmou que atuou como intermediadora do conflito interno e não como parte envolvida.
A faculdade também declarou que houve insatisfação de alguns discentes em relação a uma reavaliação aplicada ainda em 2025, o que teria gerado acusações mútuas. Segundo a Unifan, foram adotadas medidas administrativas, como abertura de sindicância interna para apurar eventual ato de indisciplina, afastamento dos docentes citados das aulas diretas aos discentes envolvidos e separação dos alunos citados no internato médico em hospitais e clínicas preceptoras.
As identidades dos envolvidos não foram divulgadas para preservar a segurança das partes e em razão do pedido de sigilo. A medida é importante porque o caso envolve denúncias sensíveis, reputações acadêmicas, possíveis crimes e a necessidade de proteger tanto quem denuncia quanto quem ainda responde às acusações.
O episódio expõe uma ferida delicada dentro do ensino superior: quando disputas acadêmicas deixam de ser resolvidas por critérios técnicos e passam a gerar medo, retaliação ou constrangimento, a instituição precisa agir com rapidez, transparência e proteção. Em cursos da área da saúde, o peso é ainda maior, porque a formação profissional exige ética, responsabilidade, equilíbrio emocional e respeito às regras.
A anulação de uma prova por suspeita de fraude já seria, por si só, um fato grave. Mas a denúncia de intimidação após a reaplicação amplia o problema. O que está em jogo não é apenas a nota de uma turma, mas a segurança do ambiente acadêmico, a liberdade de professores para avaliar, o direito de estudantes a estudar sem pressão e a credibilidade de uma formação médica.



