Polícia

A câmera deixou de só gravar: agora ela vigia, calcula e alerta

Com crescimento de 25,3% da portaria remota em 2025, segundo a Abese, inteligência artificial passa a identificar comportamentos suspeitos, reduzir falsos alarmes e diminuir custos em condomínios, empresas e residências

A segurança privada brasileira entrou em uma nova fase. O avanço da inteligência artificial, da portaria remota e do videomonitoramento inteligente está mudando a forma como condomínios, empresas e residências controlam acessos, reduzem riscos e cortam despesas. Em 2025, o segmento de portaria remota cresceu 25,3%, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança, a Abese.

A mudança vai além da instalação de câmeras. O que antes era apenas gravação de imagens agora começa a funcionar como leitura de comportamento. Sistemas com IA conseguem identificar padrões, reconhecer rostos, diferenciar eventos comuns de situações suspeitas e emitir alertas em tempo real. Na prática, a câmera deixa de ser um equipamento passivo e passa a atuar como sensor inteligente.

Esse movimento tem impacto direto no bolso dos condomínios. A expansão da portaria remota está ligada à busca por redução de despesas, especialmente com folha de pagamento, encargos trabalhistas e estrutura física de portarias tradicionais. A substituição parcial ou total da presença humana na guarita pode reduzir custos e, ao mesmo tempo, ampliar o controle sobre entradas, garagens, áreas comuns e circulação de visitantes.

O novo modelo não elimina a atuação humana, mas muda seu papel. Em vez de depender apenas de alguém observando telas o tempo todo, a inteligência artificial filtra eventos, organiza alertas e direciona a equipe para situações que realmente exigem resposta. Isso reduz falsos alarmes e melhora o tempo de reação diante de movimentações fora do padrão.

Em condomínios, a tecnologia permite controlar acessos por reconhecimento facial, aplicativos, registros digitais e monitoramento remoto. Também cria um histórico auditável de entradas e saídas, o que fortalece a gestão e facilita a apuração de ocorrências. Para síndicos e administradoras, segurança deixou de ser apenas uma despesa operacional e passou a ser parte da estratégia de valorização do imóvel.

Goiás acompanha essa transformação. Em Goiânia, bairros com forte adensamento e valorização imobiliária, como Setor Marista e Jardim Goiás, além de regiões com condomínios fechados, já aparecem como áreas de maior adoção de soluções de portaria remota e monitoramento inteligente. A demanda também cresce em condomínios horizontais da Região Metropolitana, onde o controle de perímetro é um ponto sensível.

O avanço acontece em um cenário de urbanização acelerada e sensação de insegurança. Moradores querem mais proteção, mas também pressionam por condomínios financeiramente sustentáveis. Nesse ponto, a tecnologia surge como promessa dupla: reduzir despesas e aumentar a capacidade de prevenção.

A inteligência artificial também permite criar regras diferentes para cada ambiente. Uma garagem pode ter nível de alerta diferente de uma entrada social. Uma área técnica pode ter restrição maior que um salão de festas. Uma permanência prolongada em local sensível pode gerar aviso automático. Essa personalização reduz o volume de alertas irrelevantes e ajuda as equipes de monitoramento a focarem no que realmente importa.

Mas a nova segurança também abre debates. Reconhecimento facial, coleta de dados, armazenamento de imagens e controle digital de acesso exigem responsabilidade, transparência e proteção à privacidade. Condomínios e empresas precisam informar regras, limitar acessos às informações e garantir que a tecnologia seja usada para segurança, não para vigilância abusiva.

A promessa da IA é prevenir antes que o problema aconteça. O risco é transformar toda rotina em dado sensível sem controle adequado. Por isso, o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de governança: quem acessa as imagens, por quanto tempo elas ficam armazenadas, quais dados são coletados e como moradores, visitantes e funcionários são informados.

O mercado, por outro lado, vê uma avenida de oportunidades. Empresas de tecnologia, integradores de sistemas, prestadores de monitoramento e companhias de automação passam a disputar um setor em expansão. Além da segurança, os sistemas podem ser integrados a automação residencial, gestão de energia e controle de visitantes, ampliando o valor agregado dos empreendimentos.

A tendência é que a segurança privada avance para um modelo cada vez mais conectado, com uso de internet das coisas, análise de dados e inteligência artificial. Em cidades mais verticalizadas e condomínios cada vez maiores, a proteção patrimonial deixa de depender apenas da presença física e passa a funcionar como uma rede de sensores, dados e respostas rápidas.

No fim, a pergunta que síndicos, moradores e empresas terão de responder não é mais se a tecnologia vai chegar à segurança privada. Ela já chegou. A questão agora é como usá-la com eficiência, economia e responsabilidade. A guarita tradicional não desaparece de uma hora para outra, mas já divide espaço com um novo personagem: o algoritmo que vigia sem piscar.

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