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Bolsonaro chega ao cinema em documentário que tenta humanizar o mito e o conflito

Com cerca de 70 minutos, A Colisão dos Destinos apresenta a trajetória de Jair Bolsonaro por meio de relatos de familiares, amigos próximos e aliados; produção é diferente de Dark Horse, filme sobre a campanha de 2018

O documentário “A Colisão dos Destinos”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026. Com cerca de 70 minutos, o longa acompanha a vida de Bolsonaro da infância até a chegada ao Palácio do Planalto, usando relatos de familiares, amigos próximos e aliados políticos.

A produção chega às salas em meio a um ambiente de forte disputa sobre a memória política recente do Brasil. Bolsonaro segue sendo uma das figuras mais polarizadoras do país: para apoiadores, representa enfrentamento ao sistema político tradicional; para críticos, simboliza radicalização, ataques institucionais e aprofundamento da divisão nacional.

Dirigido por Doriel Francisco, que também assina o roteiro ao lado de William Alves, o documentário propõe uma abordagem voltada à vida pessoal do ex-presidente. Mario Frias aparece na equipe como produtor. Segundo a divulgação oficial citada pelo jornal O Hoje, o filme busca ir além das manchetes e apresentar acontecimentos pessoais que teriam moldado a trajetória de Bolsonaro.

A sinopse também afirma que a obra tenta apresentar um olhar de “humanização e contextualização”, equilibrando a figura pública do ex-presidente com depoimentos de pessoas próximas. Essa escolha indica um recorte mais biográfico e favorável à leitura pessoal da trajetória, em vez de uma investigação crítica ou uma revisão ampla dos conflitos políticos do período.

O lançamento ocorre em um momento em que produções audiovisuais sobre Bolsonaro voltam a ganhar repercussão. A reportagem destaca que A Colisão dos Destinos não é o mesmo projeto de “Dark Horse”, outro filme sobre o ex-presidente, previsto para estrear em setembro de 2026. Embora as obras tenham temática semelhante e compartilhem nomes na equipe, como Mario Frias, o documentário que estreia agora não é o filme citado em denúncias sobre financiamento ligado ao empresário Daniel Vorcaro, ex-CEO e dono do Banco Master.

Essa distinção é importante porque o debate sobre filmes políticos no Brasil raramente fica restrito à tela. Em torno de Bolsonaro, qualquer obra audiovisual tende a virar também disputa de narrativa: quem conta a história, quais episódios ganham destaque, quais ficam de fora e qual imagem pública se pretende consolidar.

No caso de A Colisão dos Destinos, o eixo declarado é a trajetória pessoal. A obra promete acompanhar o caminho do ex-presidente desde as origens familiares até a ascensão ao cargo mais alto da República. Esse tipo de recorte costuma aproximar o personagem do público ao mostrar infância, laços familiares, formação pessoal e bastidores que não aparecem em discursos oficiais ou debates eleitorais.

Ao mesmo tempo, a escolha de depoimentos de familiares, amigos e aliados levanta uma questão editorial natural: o documentário deve ser recebido como uma narrativa de proximidade, não como retrato definitivo de um personagem histórico ainda cercado por disputas judiciais, políticas e sociais. Em obras sobre figuras públicas vivas e altamente controversas, o ponto de vista da produção importa tanto quanto os fatos retratados.

O outro filme citado na reportagem, “Dark Horse”, deve abordar os bastidores da campanha presidencial de 2018. Entre os episódios previstos está o atentado sofrido por Bolsonaro durante ato de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, quando ele foi esfaqueado. No longa, Bolsonaro será interpretado por Jim Caviezel, conhecido por viver Jesus Cristo em A Paixão de Cristo. O roteiro é assinado por Mario Frias, ex-secretário de Cultura e aliado do ex-presidente.

A existência de mais de uma produção sobre Bolsonaro mostra que sua imagem virou também produto cultural e campo de batalha simbólico. O cinema, nesse caso, não serve apenas para contar uma vida. Serve para disputar memória, emocionar bases políticas, provocar críticos e reorganizar percepções sobre um período recente da história brasileira.

Para o público, o interesse no documentário deve variar conforme a relação de cada espectador com o ex-presidente. Apoiadores podem ver no filme uma chance de reafirmar identificação com sua trajetória. Críticos podem enxergar a obra como tentativa de reconstrução de imagem. Já observadores políticos podem buscar entender como o bolsonarismo tenta narrar a si mesmo fora dos palanques e das redes sociais.

O ponto central é que A Colisão dos Destinos estreia em um Brasil ainda dividido por 2018, pela pandemia, pelas eleições seguintes, pelos atos de 8 de janeiro e pelas disputas judiciais envolvendo Bolsonaro e aliados. Mesmo quando o recorte é pessoal, o personagem carrega um peso político que ultrapassa qualquer tela de cinema.

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