O dinheiro é só a porta de entrada: a psicanalista Katyene explica o que mantém tantas pessoas presas às bets
Mais do que uma discussão sobre dinheiro, a entrevista revela como fatores emocionais, busca por recompensa imediata e sofrimento psicológico podem influenciar o comportamento de quem aposta pela internet
O tema ganhou espaço durante uma edição do programa Tempo de Decisão, da Fox TV Brasil, que reuniu o apresentador Pr. Epaminondas Filho e a psicanalista Katyene de Paula para discutir como o avanço das chamadas bets tem impactado a saúde emocional, a convivência familiar e até ambientes religiosos.
O apresentador lembrou que o assunto deixou de ser apenas uma discussão sobre entretenimento ou economia. Segundo ele, o problema passou a ocupar espaço dentro dos lares brasileiros e exige uma reflexão mais ampla sobre seus efeitos psicológicos e sociais.
Mais do que discutir plataformas digitais, regras de mercado ou aspectos financeiros, a entrevista direcionou o olhar para uma pergunta que costuma receber pouca atenção: o que leva uma pessoa a transformar um jogo em necessidade?
Segundo Katyene de Paula, a maioria das pessoas procura nas apostas algo que vai além da expectativa de lucro. Em muitos casos, o jogo representa uma tentativa de escapar do tédio, aliviar a ansiedade, preencher sentimentos de vazio ou encontrar uma recompensa rápida para problemas que permanecem sem solução.
O sofrimento costuma aparecer antes do vício
Em vez de enxergar apenas a aposta como problema, ela defendeu que pais, responsáveis e pessoas próximas observem mudanças graduais de comportamento, isolamento, irritabilidade, dificuldades de diálogo e alterações no relacionamento familiar.
Muitos adolescentes e adultos procuram nos jogos uma forma rápida de aliviar emoções que não conseguem expressar em casa. O prazer imediato provocado pela expectativa de ganho acaba funcionando como uma recompensa emocional temporária, reforçando um ciclo que pode evoluir para dependência.
Ao comparar diferentes gerações, Pr. Epaminondas Filho e Katyene de Paula observaram que a rotina acelerada, o uso constante de celulares e a redução dos momentos de convivência diminuíram o espaço para conversas profundas dentro de casa.
Segundo a especialista, muitos pais desejam proteger os filhos, mas acabam evitando diálogos difíceis por receio de conflitos. Em vez do acolhimento e da escuta, cresce uma convivência marcada pelo distanciamento emocional.
Enquanto todos dividem o mesmo espaço físico, cada integrante da família permanece conectado a uma realidade diferente por meio das telas, reduzindo oportunidades de perceber sinais de sofrimento emocional. A sociedade passou a valorizar respostas rápidas, resultados instantâneos e recompensas constantes, tornando mais difícil lidar com processos que exigem tempo, disciplina e frustração.
A especialista citou conceitos da psicanálise e também mencionou estudos sobre o papel da dopamina na sensação de prazer imediato, ressaltando que o jogo passa a ocupar, para algumas pessoas, um espaço semelhante ao de outras formas de dependência comportamental.
O preconceito ainda dificulta a busca por ajuda
Durante a entrevista, um dos pontos destacados foi a mudança de percepção em relação aos cuidados com a saúde mental dentro das comunidades religiosas. Segundo os participantes, durante muitos anos questões como ansiedade, síndrome do pânico, depressão e outros transtornos foram interpretadas apenas sob a ótica espiritual, o que contribuiu para atrasar o acesso de muitas pessoas ao atendimento especializado.
Ao abordar essa realidade, Katyene de Paula afirmou que ainda existem famílias que resistem a reconhecer sinais de sofrimento emocional por receio do estigma associado aos tratamentos psicológicos e psiquiátricos. Na avaliação apresentada durante o programa, esse preconceito faz com que muitas pessoas enfrentem o problema sozinhas até que a situação alcance níveis mais graves.
Compreender a diferença entre acompanhamento psicológico, psicanálise e psiquiatria representa um passo importante para reduzir esse receio. Cada área possui objetivos específicos e pode atuar de forma complementar, respeitando as necessidades de cada pessoa.
O psiquiatra é o profissional habilitado para realizar diagnósticos médicos e prescrever medicamentos quando necessário, enquanto o psicólogo trabalha aspectos comportamentais e emocionais por diferentes abordagens terapêuticas. Já a psicanálise, segundo descreveu durante a entrevista, busca compreender conflitos mais profundos ligados à história de vida e ao funcionamento do inconsciente.
O lucro prometido esconde um ciclo de perdas
A expectativa de ganhar dinheiro costuma ser apenas a porta de entrada. Depois das primeiras experiências, o comportamento passa a ser alimentado pela necessidade de reviver a sensação de recompensa proporcionada pelo próprio jogo.
Na avaliação apresentada pela especialista, mesmo quando o apostador obtém algum retorno financeiro, isso raramente interrompe o ciclo. Pelo contrário. A expectativa de repetir aquela sensação faz com que novas apostas sejam realizadas, aumentando gradativamente a exposição ao risco financeiro e emocional.
Ela ressaltou que o objetivo deixa de ser exclusivamente o dinheiro e passa a envolver a busca constante pela descarga emocional provocada pela expectativa da vitória. Essa dinâmica ajuda a explicar por que pessoas continuam apostando mesmo depois de sucessivas perdas financeiras.
O silêncio costuma esconder os primeiros sinais
Segundo a psicanalista, o comportamento compulsivo raramente surge de maneira repentina. Antes disso, podem aparecer mudanças discretas de rotina, isolamento, dificuldade para lidar com frustrações, alterações de humor, impulsividade e redução do diálogo familiar.
Na avaliação apresentada durante o programa, muitos desses sinais passam despercebidos porque familiares acreditam estar diante apenas de uma fase da adolescência ou de dificuldades temporárias.
Defendeu que pais e responsáveis observem não apenas o tempo gasto diante das telas, mas também alterações emocionais, perda de interesse por atividades presenciais e mudanças no relacionamento dentro de casa.
Quando a família também precisa de ajuda
Durante a entrevista, Katyene de Paula chamou atenção para um aspecto que costuma receber pouca atenção nos processos terapêuticos: muitas vezes não é apenas quem desenvolveu o comportamento compulsivo que necessita de acompanhamento.
Ela observou que, em alguns casos, familiares acabam reforçando comportamentos prejudiciais ao tentar evitar conflitos ou atender imediatamente às exigências dos filhos. Sem perceber, contribuem para fortalecer a lógica da recompensa instantânea que também alimenta outros comportamentos compulsivos. Reconstruir vínculos, restabelecer limites e criar espaços de conversa tornam-se atitudes tão importantes quanto interromper as apostas.
Embora as perdas financeiras sejam frequentemente associadas às apostas, a entrevista destacou que os impactos emocionais costumam permanecer por mais tempo. Ao comentar os efeitos do comportamento compulsivo, afirmou que dinheiro pode ser recuperado. A confiança perdida entre familiares, porém, exige tempo, compromisso e mudanças concretas para ser reconstruída.
O desafio da próxima geração
Segundo os participantes, a normalização das apostas pode influenciar a forma como crianças e adolescentes passam a compreender sucesso, esforço e realização pessoal.
Para Katyene de Paula, existe o risco de que novas gerações associem prosperidade à sorte, reduzindo a importância da dedicação, da paciência e da construção gradual de objetivos.
Na avaliação apresentada durante o programa, quando o imediatismo substitui a perseverança, cresce também a dificuldade de lidar com frustrações, perdas e processos naturais da vida.
Essa mudança cultural, segundo ela, pode ampliar não apenas os casos de dependência relacionados às apostas, mas também outros comportamentos impulsivos associados à busca permanente por recompensas rápidas.
Ao encerrar o programa, o Pr. Epaminondas Filho utilizou a narrativa bíblica de Esaú para ilustrar os riscos de decisões motivadas apenas pelo impulso imediato. Sem estabelecer comparação direta entre a passagem bíblica e situações clínicas, o apresentador propôs uma reflexão sobre escolhas que oferecem satisfação momentânea, mas podem produzir consequências duradouras.
Mais do que discutir apostas, a edição do Tempo de Decisão propôs uma reflexão sobre saúde emocional, convivência familiar e responsabilidade coletiva diante de um problema que, muitas vezes, permanece invisível até que suas consequências atinjam toda a família.



