NacionalCidadesSaúde

Milhões sofrem, poucos tratam: saúde mental ainda esbarra na fila do SUS

Apesar do avanço da Rede de Atenção Psicossocial e dos CAPS, especialistas apontam subfinanciamento, falta de profissionais, diagnóstico tardio e dificuldade de acompanhamento contínuo para pacientes com transtornos mentais complexos

Milhões de brasileiros convivem com transtornos mentais, mas o acesso ao tratamento contínuo ainda está longe de alcançar todos que precisam. A situação é mais grave quando envolve transtornos de personalidade e quadros complexos, que exigem acompanhamento prolongado, vínculo terapêutico e uma rede estruturada de saúde mental, condições que, na prática, ainda não chegam de forma suficiente à maioria dos pacientes no Sistema Único de Saúde.

A reportagem do Metrópoles mostra que o problema não está apenas na existência dos serviços, mas na capacidade de garantir continuidade. A Rede de Atenção Psicossocial, os CAPS e outros pontos de cuidado representam avanços importantes, mas filas longas, equipes sobrecarregadas, falta de especialistas, desigualdade regional e subfinanciamento dificultam o acesso, especialmente nas áreas mais vulneráveis.

Um dos pontos mais preocupantes é a falta de dados atualizados. A última Pesquisa Nacional de Saúde foi realizada em 2019. Naquele levantamento, cerca de 16,3 milhões de brasileiros informaram já ter recebido diagnóstico de depressão. Mesmo assim, apenas 18,9% faziam psicoterapia, e menos da metade usava medicação de forma recorrente. O retrato é claro: muita gente recebe o diagnóstico, mas não consegue seguir o tratamento como deveria.

A dificuldade aumenta quando o transtorno não aparece de forma simples. Transtornos de personalidade, por exemplo, podem ser confundidos com ansiedade, depressão, alterações de humor ou crises pontuais. O paciente passa anos recebendo atendimentos fragmentados, tratando sintomas imediatos, mas sem chegar ao problema de base.

A psiquiatra Renata Figueiredo, vice-presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília, afirma que a rede pública costuma estar mais preparada para lidar com casos agudos, aqueles em que o sofrimento aparece de forma urgente. O problema é que transtornos crônicos exigem outra lógica: escuta prolongada, avaliação ampla, vínculo com a equipe e plano terapêutico contínuo.

Na prática, isso significa que uma pessoa pode procurar atendimento em crise, receber medicação ou encaminhamento, melhorar temporariamente e depois voltar ao mesmo ciclo. Sem acompanhamento regular, o sofrimento reaparece, a família se desorganiza, o trabalho é afetado, os relacionamentos se desgastam e o paciente volta à porta do sistema muitas vezes mais vulnerável.

Segundo o Conselho Federal de Psicologia, embora o país tenha aumentado o número de profissionais, houve redução proporcional na rede pública. A entidade aponta que subfinanciamento, cobertura territorial insuficiente e sobrecarga das equipes comprometem a continuidade do cuidado e defende ampliação do financiamento, fortalecimento da rede e concursos para recompor equipes.

A falta de psiquiatras no SUS também aparece como obstáculo central. Renata Figueiredo resume o problema ao afirmar que não faltam psiquiatras no país, mas faltam psiquiatras no SUS. A dificuldade envolve consultas, psicoterapia, acesso a medicamentos, internação quando necessária e, principalmente, continuidade no acompanhamento.

Outro desafio é o diagnóstico. A psiquiatra Elaine Bida, ex-diretora de Saúde Mental do Distrito Federal, explica que transtornos mentais complexos exigem avaliação global do desenvolvimento da pessoa e dos impactos do comportamento na vida pessoal, familiar e social. Em muitos casos, há comorbidades — ou seja, mais de um transtorno ao mesmo tempo — como transtornos de humor e ansiedade associados.

Esse tipo de avaliação não cabe em uma consulta apressada. Exige tempo, equipe preparada e acompanhamento. Quando isso não acontece, o risco é o paciente ser visto como “difícil”, “resistente” ou “sem melhora”, quando, na verdade, pode estar sem o diagnóstico adequado e sem o tratamento correto.

O Brasil conta atualmente com 3.019 CAPS em funcionamento, segundo dados citados pela reportagem. O Ministério da Saúde informa cobertura nacional de 1,13 CAPS por 100 mil habitantes, conforme o relatório Saúde Mental em Dados 2024/2025. Embora a rede tenha crescido, especialistas alertam que a expansão ainda não garante, sozinha, cuidado contínuo para todos.

A consequência dessa falha é profunda. Transtornos mentais não tratados de forma adequada podem se cronificar, aumentar o sofrimento, agravar crises, elevar o risco de afastamento do trabalho, romper vínculos familiares e ampliar a demanda por atendimentos de urgência. Para o paciente, não é apenas uma fila. É tempo de vida perdido em sofrimento.

A retomada da Pesquisa Nacional de Saúde Mental, iniciada em março de 2026 pelo Ministério da Saúde, pode ajudar a mapear melhor a realidade da saúde mental da população adulta brasileira. O levantamento é importante porque políticas públicas precisam de dados. Sem informação atualizada, o país corre o risco de tratar uma crise crescente com ferramentas antigas.

O debate também exige mudança cultural. Transtorno mental não é fraqueza, falta de fé, preguiça ou “drama”. É uma condição de saúde que precisa de diagnóstico, tratamento, rede de apoio e continuidade. Assim como uma doença crônica física, o cuidado em saúde mental não se resolve apenas com uma consulta isolada.

Para a população, o alerta é direto: sofrimento psíquico persistente merece atenção profissional. Mudanças intensas de humor, isolamento, impulsividade, crises frequentes, pensamentos de autodesvalorização, dificuldade de manter vínculos, ansiedade incapacitante, tristeza profunda ou prejuízo na rotina não devem ser normalizados.

Para o poder público, a cobrança é ainda mais clara: saúde mental não pode depender apenas da força de quem sofre. É preciso ampliar equipes, reduzir filas, garantir psicoterapia, assegurar medicamentos, fortalecer os CAPS, integrar atenção básica e especializada e criar caminhos reais de continuidade.

No fim, a crise da saúde mental no SUS não aparece apenas nas estatísticas. Ela aparece na mãe que espera atendimento para o filho, no trabalhador que não consegue voltar ao emprego, no jovem que passa anos sem diagnóstico correto e no paciente que aprende a conviver com a dor porque o sistema ainda não conseguiu escutá-lo por tempo suficiente. Na saúde mental, esperar também machuca.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo