Caiado mandou recado aos políticos que só lembram do agro na eleição: “sou raiz, não sabor agro”

Pré-candidato à Presidência pelo PSD, Ronaldo Caiado usou visita à Agrishow, em Ribeirão Preto, para reforçar sua ligação histórica com o agronegócio, criticar adversários que buscam apoio do setor em ano eleitoral e disputar espaço no eleitorado rural
O ex-governador de Goiás e pré-candidato à Presidência da República pelo PSD, Ronaldo Caiado, transformou sua passagem pela Agrishow 2026, em Ribeirão Preto, em um recado direto aos políticos que se aproximam do agronegócio apenas em época de eleição. Sem citar nomes, Caiado criticou adversários que, segundo ele, tentam vestir a camisa do setor por conveniência eleitoral, mas não têm ligação real com o campo.
A frase que marcou a agenda foi curta, mas calculada para bater forte: “Eu sou agro raiz. Eu não sou sabor agro.” Com essa expressão, Caiado buscou se diferenciar de concorrentes que passaram a frequentar eventos do setor rural em busca de apoio político para 2026. A declaração foi feita durante visita à Agrishow, considerada uma das principais feiras de tecnologia agrícola do país.
O motivo da fala está no peso político que o agronegócio ganhou na disputa presidencial. A Agrishow virou vitrine para pré-candidatos, lideranças partidárias e grupos que tentam conquistar a confiança de produtores rurais, empresários do setor e entidades ligadas ao campo. Nesse ambiente, Caiado tentou passar uma mensagem simples: nem todo político que aparece em feira agropecuária tem história com o agro.
A crítica também faz parte da estratégia nacional do ex-governador. Caiado deixou o Governo de Goiás em 31 de março de 2026 para disputar a Presidência da República, abrindo caminho para a posse de Daniel Vilela no comando do Estado. Desde então, tem buscado consolidar sua imagem como nome da centro-direita com experiência administrativa, vínculo com o setor produtivo e discurso de segurança pública.
Ao usar os termos “agro raiz” e “sabor agro”, Caiado mirou diretamente a disputa pela autenticidade. Na prática, ele quis dizer que existe uma diferença entre quem tem trajetória ligada ao campo e quem tenta se apropriar do discurso rural apenas quando o calendário eleitoral se aproxima. A mensagem interessa especialmente ao produtor que se sente usado em campanha, mas esquecido nas decisões de governo.
A fala também carrega uma provocação ao governo federal. Durante a agenda, Caiado criticou adversários e o governo Lula, reforçando o contraste entre sua identidade política e a do atual presidente. A disputa, portanto, não é só sobre máquinas agrícolas, crédito rural ou tecnologia no campo. É sobre quem o agro considera confiável para defender seus interesses em Brasília.
O agronegócio é um dos setores mais influentes da economia brasileira e costuma ter peso decisivo em campanhas nacionais, especialmente no Centro-Oeste, no interior de São Paulo, em Minas Gerais, no Paraná, em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e em regiões de forte produção rural. Por isso, a aproximação de presidenciáveis com o setor não é casual. Ela faz parte de uma disputa por financiamento, apoio político, capilaridade regional e narrativa pública.
Caiado tenta ocupar esse espaço dizendo que sua relação com o campo vem de antes da moda política do agro. Sua trajetória pública sempre teve forte ligação com pautas rurais, desde a atuação parlamentar até os governos em Goiás. Reportagem do El País sobre sua pré-candidatura destacou que Caiado mantém sintonia histórica com o agronegócio e tenta se apresentar como alternativa de terceira via em um cenário polarizado.
Mas a fala também tem outro público: a população urbana. Ao criticar o “agro de conveniência”, Caiado tenta transformar uma discussão setorial em uma mensagem mais ampla contra o oportunismo político.

O recado para o eleitor comum é que há políticos que mudam de discurso conforme o ambiente, prometem apoio onde há voto e depois desaparecem quando precisam entregar resultado.
Para a população, a mensagem central da declaração é menos sobre rótulo e mais sobre coerência. O eleitor deve observar quem tem posição constante, quem defende o setor produtivo apenas diante das câmeras, quem conhece os problemas reais do campo e quem usa o agro como figurino de campanha. Em ano eleitoral, a diferença entre compromisso e encenação pode definir alianças, discursos e votos.
A presença de Caiado na Agrishow também mostra que a eleição de 2026 será disputada nos grandes palcos econômicos do país. Feiras, encontros empresariais, eventos religiosos, agendas de segurança e reuniões com setores produtivos serão usados como vitrines para candidatos testarem mensagens e medirem força.
No caso do agro, a disputa é ainda mais sensível. O setor cobra segurança jurídica, infraestrutura, crédito, logística, abertura de mercados, previsibilidade ambiental e respeito político. Ao mesmo tempo, enfrenta críticas sobre conflitos fundiários, pressão ambiental e concentração econômica. Quem quiser falar com o campo terá de ir além de frases prontas.

Caiado sabe disso. Por isso, sua fala foi desenhada para produzir contraste: de um lado, o político que viveu o agro; do outro, o político que apenas consome o discurso do agro. É uma provocação simples, popular e fácil de repetir. Exatamente o tipo de frase que nasce em uma feira, ganha as redes sociais e vira munição de campanha.
No fim, ao dizer que é “agro raiz” e não “sabor agro”, Caiado tentou fazer mais do que defender sua biografia.
Ele quis marcar território em uma das arenas eleitorais mais cobiçadas do Brasil. Para o produtor, deixou a mensagem de pertencimento. Para os adversários, o aviso de que o agro não será território sem disputa. E para a população, o alerta de que, em ano de eleição, é preciso olhar além da foto no trator e perguntar quem realmente tem compromisso depois que o palanque é desmontado.



