
Estudos com semaglutida e tirzepatida mostram que parte dos pacientes não atinge perda mínima de peso; especialistas defendem acompanhamento médico, ajuste de dose e revisão de fatores clínicos, comportamentais e medicamentosos
As chamadas canetas emagrecedoras viraram símbolo de esperança para quem enfrenta obesidade, mas os resultados não são iguais para todos. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida podem ajudar na perda de peso, especialmente quando usados com acompanhamento médico, mas há pacientes que não atingem o resultado esperado mesmo nos primeiros meses de tratamento.
No ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021 no The New England Journal of Medicine, cerca de 14% dos participantes tratados com semaglutida não perderam ao menos 5% do peso corporal. Já no estudo SURMOUNT-1, com tirzepatida, a taxa de não resposta foi de 9,1% entre os participantes que receberam a dose de 15 mg. Nas doses menores, os percentuais foram mais altos: 11,1% na dose de 10 mg e 14,9% na dose de 5 mg.
A explicação não está em uma única causa. A resposta ao tratamento envolve biologia, dose, tolerância aos efeitos colaterais, presença de outras doenças, uso de medicamentos, comportamento alimentar, sono, estresse e até fatores genéticos. Em outras palavras: a caneta não age em um corpo isolado. Ela entra em uma história clínica.
O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, explica que cada pessoa responde de uma forma e estima que 5% a 10% dos pacientes não tenham boa resposta a esse tipo de tratamento. Ele também destaca que o ajuste progressivo da dose é parte importante da estratégia, tanto para melhorar a tolerância quanto para reduzir efeitos colaterais.
Esse ponto é fundamental porque muitos pacientes interrompem o tratamento quando sentem náuseas, vômitos, desconforto gastrointestinal ou quando não veem a balança cair no ritmo imaginado. Mas parar por conta própria pode atrapalhar o plano terapêutico. Em alguns casos, o médico pode recuar temporariamente a dose, avançar mais lentamente ou trocar a estratégia.
Pacientes com diabetes tipo 2 podem apresentar resposta menor em perda de peso. Uma das hipóteses é a maior resistência à insulina. Em estudo publicado em 2024 na revista Diabetologia, pesquisadores analisaram dados de 4.467 adultos com diabetes tipo 2 em uso de liraglutida, semaglutida ou dulaglutida. Apenas 14% conseguiram, ao mesmo tempo, melhorar de forma relevante o controle da glicose e perder ao menos 5% do peso corporal.
A dose também pesa no resultado. Um ensaio publicado em 2025 no The Lancet mostrou que a semaglutida de 7,2 mg teve perda média de peso superior à dose de 2,4 mg, padrão para emagrecimento, em adultos com obesidade e sem diabetes. Após 72 semanas, a perda média foi de 18,7% com a dose mais alta, contra 15,6% com a dose padrão.
Mas dose maior não significa solução automática. Quanto maior a dose, maior pode ser o risco de efeitos colaterais e abandono. Por isso, a escalada precisa ser individualizada. O que funciona para uma pessoa pode ser intolerável para outra.
Outro fator é a farmacocinética, nome técnico para a forma como o organismo absorve, distribui e metaboliza o medicamento. Estudo citado pela reportagem mostrou que a resposta clínica à semaglutida depende dos níveis da droga no sangue. Pessoas com maior peso corporal podem ter menor exposição ao medicamento, o que ajuda a explicar parte da variação nos resultados.
O uso de outros remédios também pode atrapalhar. Diretrizes da Sociedade de Endocrinologia recomendam reavaliar medicamentos que favoreçam ganho de peso, quando possível. Entre eles estão insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis.
Há ainda um componente genético em estudo. Pesquisa publicada na Nature, com 27.885 pessoas usando medicamentos da classe, identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada a maior eficácia do tratamento. O estudo também encontrou relações entre variantes genéticas e maior risco de náusea e vômito, especialmente com tirzepatida.
Mesmo assim, a discussão sobre acesso público continua. Em 2026, a Novo Nordisk anunciou um programa piloto para oferta do Wegovy na rede pública no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, com foco em pacientes com obesidade grave e populações vulneráveis. A proposta é gerar dados sobre impacto clínico, social e econômico da semaglutida em casos de maior risco.
A mensagem para a população é clara: canetas emagrecedoras são medicamentos, não atalhos mágicos. Podem ser úteis, mas exigem indicação correta, acompanhamento, ajuste de dose, controle de efeitos colaterais e revisão do conjunto da vida do paciente.



