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Goiás aposta no pequi sem espinho e transforma fruto do Cerrado em lavoura comercial planejada

Novas variedades desenvolvidas pela pesquisa pública permitem produção previsível, ampliam o uso sustentável do bioma e aumentam a renda no campo

Durante décadas associado quase exclusivamente ao extrativismo, o pequi começa a consolidar uma nova etapa produtiva no Cerrado goiano. Com o avanço de variedades sem espinho, o fruto típico da região passa a integrar sistemas de lavoura comercial planejada, com calendário de produção definido, maior rendimento industrial e ganhos econômicos mais estáveis para produtores rurais.

A mudança é resultado de pesquisas conduzidas ao longo de anos que culminaram no desenvolvimento de materiais genéticos sem espinho no caroço, mantendo características tradicionais como sabor, aroma e coloração. A inovação facilita o consumo, amplia a segurança no manuseio e torna o pequi mais atrativo para a indústria alimentícia, além de elevar o aproveitamento da polpa, que se apresenta mais grossa e suculenta.

Outro fator estratégico é a possibilidade de cultivo em áreas de reserva legal, o que permite conciliar preservação ambiental com geração de renda. Desde os anos 2000, o plantio de pequi vem sendo adotado nessas áreas, transformando obrigações legais em oportunidade produtiva sustentável e reduzindo a pressão sobre áreas nativas exploradas de forma extrativista.

O avanço da cultura já se reflete no mercado de mudas em Goiás. Viveiristas do estado relatam a comercialização anual de dezenas de milhares de mudas de pequi sem espinho, com preços significativamente superiores aos do pequi tradicional, sinalizando forte demanda e expectativa de retorno econômico. Além da venda de mudas, produtores têm investido em pomares comerciais, com variedades mais precoces, capazes de iniciar a produção a partir do quarto ano e apresentar boas safras bienais, o que facilita o planejamento financeiro da atividade.

Em outros estados do Cerrado, como Mato Grosso, os plantios comerciais também ganham escala, com pomares que entraram em produção nos últimos anos e uso crescente de mudas enxertadas. A tecnologia reduz o tempo de entrada em produção e garante maior uniformidade das plantas e dos frutos. Em condições adequadas de manejo, uma árvore adulta pode render várias caixas por safra, embora técnicos alertem para a necessidade de cuidados nos primeiros anos, como adubação correta, controle de pragas e acompanhamento técnico.

Apesar dos avanços, a produção nacional de pequi ainda é majoritariamente extrativista. Minas Gerais lidera o volume colhido, enquanto Goiás e Mato Grosso começam a incorporar áreas cultivadas aos números oficiais. A expectativa de pesquisadores e extensionistas é que o cultivo tecnificado do pequi sem espinho ganhe espaço nos próximos anos, estruturando uma cadeia produtiva mais organizada e integrada à agroindústria, com usos que vão do consumo in natura às conservas, óleos e aplicações na indústria cosmética e medicinal.

GED

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