
Alta procura por medicamentos injetáveis impulsiona mercado clandestino, preocupa médicos e acende alerta das autoridades sanitárias
A busca pelo emagrecimento rápido transformou as chamadas canetas emagrecedoras em um dos maiores fenômenos da saúde em 2025. Medicamentos injetáveis indicados originalmente para o tratamento do diabetes tipo 2, como Ozempic e Mounjaro, passaram a ser utilizados também para perda de peso — muitas vezes sem indicação médica e, em cenários ainda mais graves, por meio de produtos falsificados ou manipulados sem controle sanitário.
Com a alta demanda, cresceu paralelamente um mercado clandestino que comercializa versões irregulares dessas substâncias. Nesses casos, o que parece ser uma solução mais barata pode representar um risco significativo à saúde, com efeitos imprevisíveis e até potencialmente fatais.
A endocrinologista Alessandra Rascovski, da Clínica AtmaSoma, em São Paulo, alerta que a popularização dessas medicações precisa caminhar junto com políticas de segurança.
“O avanço dessas terapias é positivo, mas deve vir acompanhado de estudos rigorosos, fiscalização e uso responsável. O risco cresce quando o medicamento sai do ambiente médico e entra na informalidade”, avalia.
Uso médico é regra, não exceção
Especialistas reforçam que os agonistas de GLP-1 só devem ser utilizados com prescrição e acompanhamento médico, seja para controle do diabetes, seja para tratamento da obesidade. Desde junho de 2025, farmácias em todo o país são obrigadas a reter a receita médica na venda dessas medicações, medida que buscou conter o uso indiscriminado.
O efeito colateral da restrição, no entanto, foi o aumento da procura por versões falsificadas ou manipuladas ilegalmente, especialmente por pessoas sem indicação clínica.
“Há pacientes comprando semaglutida e tirzepatida manipuladas que não passam por nenhum controle de qualidade. Não se sabe o que realmente há dentro do frasco. É um risco real”, alerta o endocrinologista Mario José Dias Trombetta, do Rio de Janeiro.
Segundo ele, o emagrecimento seguro e sustentável não admite atalhos. “Informação, avaliação médica e acompanhamento contínuo são indispensáveis”, afirma.
Anvisa endurece regras contra produtos irregulares
Diante do avanço das irregularidades, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária proibiu, em novembro de 2025, a prescrição de versões manipuladas dos agonistas de GLP-1. A decisão atendeu a um pedido conjunto de diversas entidades médicas e teve como objetivo preservar o controle de qualidade e a segurança dos pacientes.
O médico César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira, descreve o cenário como alarmante.
“Não estamos falando de irregularidades pontuais, mas de um sistema estruturado de fabricação e venda clandestina, com risco imediato à saúde de milhares de pessoas”, afirma.
Entre os principais riscos associados às canetas irregulares estão:
- Variação imprevisível da dosagem
- Contaminação microbiológica
- Reações alérgicas graves
- Pancreatite, vômitos persistentes e distúrbios metabólicos
- Desidratação severa e hospitalizações
Indústria identifica produtos falsos com falhas graves
As próprias farmacêuticas que produzem os medicamentos originais também intensificaram o combate às falsificações. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, relatou a circulação de substâncias ilegais vendidas com o nome de moléculas que sequer foram lançadas no mercado, como a retratutida.
Após analisar amostras apreendidas em diferentes países, a empresa identificou bactérias, níveis elevados de impurezas e alterações químicas graves nos produtos falsos. Em alguns casos, o conteúdo era composto apenas por álcool de açúcar. Como resposta, a farmacêutica lançou uma ferramenta de verificação por QR Code para checar a autenticidade dos produtos.
Risco existe até com o medicamento original
Mesmo quando o produto é legítimo, o uso sem indicação médica também pode trazer consequências sérias. Eventos biliares, pancreatite e agravamento de condições endócrinas estão entre os riscos documentados.
“Indicações erradas fazem com que causas hormonais do ganho de peso passem despercebidas. Além disso, contraindicações graves, como histórico de carcinoma medular de tireoide ou síndrome MEN2, podem ser ignoradas”, explica Trombetta.
Rascovski reforça que até prescrições mal orientadas, com finalidade exclusivamente estética, podem cobrar um preço alto.
“O uso prolongado sem controle adequado pode gerar alterações metabólicas importantes e efeitos colaterais significativos”, ressalta.
Informação e responsabilidade como linha de defesa
Especialistas são unânimes ao afirmar que informação qualificada, respeito às normas sanitárias e acompanhamento médico são essenciais para evitar que a promessa de emagrecimento rápido se transforme em um grave problema de saúde.
“A obesidade, assim como o diabetes, é uma doença crônica. Nem sempre pode ser tratada apenas com mudança de hábitos, mas precisamos garantir que o medicamento chegue a quem realmente precisa — e de forma segura”, conclui Rascovski.



