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Aluno com deficiência visual rompe barreiras e se destaca no curso de pedagogia

Gilmar Benício Xavier cursa o oitavo período e não esconde o entusiasmo com a tão esperada colação de grau que deve ocorrer já no próximo semestre

Concluir a faculdade é um momento de alegria para centenas de estudantes que se formam todos os anos nos cursos de Graduação. Concluir a faculdade é um momento de alegria para centenas de estudantes que se formam todos os anos nos cursos de Graduação.

Depois de muito estudo e dedicação, receber o diploma traz aos novos profissionais a satisfação do dever cumprido. Mas além da vitória no próprio curso, alguns formandos dão o exemplo de que a superação pode ir além dos próprios limites físicos. São alunos que convivem com diferentes tipos de deficiências e, destacando-se nos estudos, mostram que é possível tornar a universidade um espaço mais plural e inclusivo.

O aluno do Centro Universitário Alfredo Nasser (UNIFAN) Gilmar Benício Xavier é cego congênito e está prestes a realizar um dos seus grandes sonhos: formar-se em Pedagogia. Gilmar cursa o oitavo período e não esconde o entusiasmo com a tão esperada colação de grau que deve ocorrer já no próximo semestre.

Natural de Paratinga, município baiano localizado a 710 quilômetros a oeste de Salvador, Gilmar é filho de dona Isabel e o senhor Henrique Xavier, pequenos agricultores que sempre sonharam em dar uma vida melhor para o filho.Aos seis anos ele foi matriculado em uma escola pública no município.

Era para ser apenas o primeiro dia de aula, quando Gilmar ouviu de sua professora: “eu não dou conta de ensinar um aluno cego”. Poderia ser só um comentário ou desabafo, mas para ele foi um grande incentivo para lutar incansavelmente pelos seus sonhos.

Mesmo com diversas dificuldades enfrentadas na rotina dos estudos, concluiu o ensino médio, casou-se com a Natália Francisca Xavier e em 2014 veio para Goiás, onde planejava cursar o ensino superior.

Gilmar afirma que a falta de interesse – e qualificação – de alguns docentes pelo trabalho pedagógico com um aluno cego é um sério obstáculo atitudinal na educação superior, mas que ao se matricular no Centro Universitário Alfredo Nasser, em 2018, começou a perceber que existem instituições comprometidas com a inclusão.

Neste contexto o Unifan tem buscado alternativas ao acesso e permanência dos alunos com deficiência ou mobilidade reduzida nas mais diferentes atividades da comunidade universitária, investindo na plena condição para utilização, com segurança e autonomia, total ou assistida, dos espaços e mobiliários, além de investir na acessibilidade metodológica, ou seja, a forma como os professores concebem conhecimento, aprendizagem, avaliação e inclusão educacional.

“O curso de Pedagogia do Centro Universitário Alfredo Nasser tem como um dos objetivos o acolhimento a todos os acadêmicos. Estendendo esse acolhimento aos acadêmicos que possuem algum tipo necessidade educacional especial promovendo a autonomia, a inserção e o desenvolvimento de habilidade e competências. Ao receber esses acadêmicos com alguma necessidade educacional, além de colaborar no processo formativo, buscamos mediar a construção de um sujeito autônomo e participativo socialmente, sendo responsáveis por sua própria história”, destaca a coordenadora do curso de Pedagogia, Professora MsC Rosy-Mary Magalhães de Oliveira Sousa.

De acordo com ela, a grande questão para que mais pessoas com deficiência possam cursar uma faculdade não se trata de força de vontade, mas, sim, do suporte que as instituições de ensino devem oferecer ao estudante.Para Gilmar, a ajuda de colegas, professores e a esposa Natália foi essencial para alcançar a tão sonhada formação. “Meus professores me construíram, me lapidaram e me incentivaram a me descobrir”, conta o discente.    Hoje Gilmar vê os estudos como uma alavanca para que o deficiente visual total ou parcial se adapte à nova realidade com maior facilidade.

“A melhor forma de conquistar objetivos é através dos estudos. A ciência avança surpreendentemente, mas precisa que alguém estude”, ressalta. 

Determinado, Gilmar combate a ideia de que a inclusão seja apenas uma forma assistencial de reinserção. Afirma que o deficiente tem de estar no meio acadêmico por querer adquirir o conhecimento com esforço e capacidade, não só porque é deficiente.Gilmar acredita que não existe preconceito pior do que o do próprio deficiente visual.

“Quando o deficiente acredita que não pode levar uma vida normal, ele perde o estímulo. Esse preconceito é o primeiro que deve ser combatido. Independentemente de ser cego, sou vivo. Posso viver, posso estudar. Como homem e cidadão, contribuo para o desenvolvimento do país no qual nasci”, afirma.    Com essa determinação e força de vontade, o acadêmico superou todas as dificuldades, conquistando o respeito e a admiração dos professores e colegas de turma, nunca demonstrando ser limitado ou estar desfavorecido, muito pelo contrário, demonstrando superação e força de vontade ao longo desses quatro anos.    “Eu não falo que não consigo, que é impossível fazer algo. Para mim, essa palavra não funciona, não. Eu persisto nas coisas e até fico admirado pelo que faço. Talvez se eu não fosse cego, não iria conseguir mostrar que há possibilidades e que não é preciso só reclamar dos problemas.     Com a minha história, certamente acabo transformando a vida de algumas pessoas”, disse o acadêmico de Pedagogia do Unifan.

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