
Reportagens recentes resgatam a atuação do profissional que ajudou a identificar o acidente radioativo em Goiânia e reacendem o interesse público
A história do acidente com o Césio-137 em Goiânia voltou ao centro das atenções após a publicação de reportagens que resgatam o papel fundamental do físico responsável por identificar a contaminação. O caso, considerado um dos maiores acidentes radiológicos do mundo fora de usinas nucleares, ocorreu em 1987 e ainda provoca impacto décadas depois.
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Walter Mendes Ferreira foi o responsável por identificar o acidente com o césio-137 em 1987 — Foto: Reprodução/Cnen
O profissional teve atuação decisiva ao perceber que os sintomas apresentados pelas vítimas não eram comuns. A identificação da radiação foi essencial para que as autoridades compreendessem a gravidade da situação e iniciassem medidas emergenciais. O episódio começou após a retirada de um equipamento abandonado de radioterapia, que continha material altamente radioativo.
Segundo os relatos recentes, o físico enfrentou dificuldades no início da investigação, já que não havia, naquele momento, uma compreensão clara do que estava acontecendo. A confirmação da presença do Césio-137 mudou completamente o rumo das ações, mobilizando equipes especializadas e levando à evacuação de áreas contaminadas.
Lições deixadas pelo césio-137
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Físico Walter Mendes — Foto: Luana Avelar/SES-GO
Para Walter, o acidente em Goiânia deixou lições para toda a comunidade científica que utiliza a tecnologia nuclear, que foram incorporadas por vários organismos internacionais.
“As ações empregadas para mitigar o acidente levou ao aprimoramento e criação de novos protocolos e procedimentos: a radioproteção caracterização de rejeitos, comunicação com o público e mídia, o trabalho conjunto com instituições afins, instrumentação nuclear, descontaminação de áreas, o atendimento médico ao radioacidentado, a criação de um arcabouço legal para esse tipo de acidente e o fortalecimento do poder regulatório”, destacou o especialista.
As reportagens também destacam o impacto humano da tragédia. Centenas de pessoas foram expostas à radiação, muitas delas sem saber do risco. O brilho azulado do material chamou a atenção de moradores, que acabaram manipulando a substância. O episódio resultou em mortes, contaminações graves e consequências duradouras para a saúde das vítimas.
Além do resgate histórico, o conteúdo recente reacende o debate sobre segurança, fiscalização e responsabilidade no descarte de materiais radioativos. O caso de Goiânia é frequentemente citado como exemplo de falha no controle de equipamentos perigosos e na comunicação de riscos à população.
A repercussão nas redes sociais demonstra que o tema ainda desperta interesse e preocupação. Internautas comentaram a importância de manter viva a memória do acidente, tanto como forma de homenagem às vítimas quanto como alerta para evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.
O ferro-velho onde o material foi parar também tem origem real. O dono do local é inspirado em Devair Alves Ferreira, que levou o césio para casa após se encantar com o brilho azul emitido pela substância, fator decisivo para a contaminação se espalhar.
Emergência Radioativa da Netflix
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Série da Netflix mistura personagens reais e ficcionais ao retratar tragédia do césio-137 por Divulgação
A atuação do físico, agora relembrada, é vista como peça-chave para a contenção da tragédia. Seu trabalho permitiu que o acidente fosse identificado a tempo de reduzir danos ainda maiores, apesar das consequências já significativas registradas na época.
O resgate dessa história reforça o impacto duradouro do episódio e a importância da ciência em momentos críticos. Décadas depois, o acidente com o Césio-137 segue como referência mundial em estudos sobre contaminação radiológica e gestão de crises.
Veja fotos reais do desastre radiológico:






Ao tentar medir a radiação, veio o choque. “Quando cheguei próximo à Vigilância Sanitária, o aparelho saturou a medida, ao ponto de eu achar que ele estava com defeito.” Um segundo detector confirmou: os níveis eram extremamente altos.
De acordo com informações divulgadas pelo Governo de Goiás, na época, um monitoramento realizado no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
O acidente resultou em quatro vítimas fatais diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):
- Leide das Neves Ferreira: Um dos símbolos da tragédia, a menina de apenas 6 anos era filha de Ivo Ferreira, e foi a pessoa mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. A criança morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação.
- Maria Gabriela Ferreira: Esposa de Devair e a pessoa responsável por evitar que a contaminação fosse ainda maior, ela adoeceu três dias após o contato e faleceu na mesma data que Leide, em 23 de outubro, aos 37 anos.
- Israel Batista dos Santos: Jovem de 20 anos era funcionário de Devair e trabalhou na remoção do chumbo da fonte. Ele faleceu em 27 de outubro.
- Admilson Alves de Souza: Aos 18 anos, ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro.
A tragédia gerou 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, que estão armazenados de forma definitiva em depósitos em Abadia de Goiás. Atualmente, o Centro de Assistência aos Radioacidentados (CARA) continua monitorando a saúde das vítimas e de seus descendentes.
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Milhares de pessoas foram avaliadas na época do acidente com césio-137 — Foto: Reprodução/Cara



