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Em Goiás, uso consciente do fogo reduz incêndios na Chapada dos Veadeiros

Adotada de forma experimental entre 2012 e 2014, prática se expandiu após grandes incêndios ocorridos em 2017 e 2020

O uso consciente do fogo tem contribuído para a redução dos incêndios florestais na Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás, região nordeste do Estado, de acordo com brigadistas e pesquisadores. A prática, adotada na região desde 2014, se expandiu, principalmente, depois dos grandes incêndios de 2017 e 2020, os quais consumiram 22% e 31% do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, respectivamente.

O conjunto de técnicas, denominado Manejo Integrado do Fogo (MIF), usa o fogo como ferramenta para prevenir incêndios florestais, a exemplo da queima excessiva de vegetação seca, propícia a se tornar combustível de incêndios de grandes proporções.

Localizada no Quilombo Kalunga, a cachoeira de Santa Bárbara, é um dos locais que recebeu uma brigada, formada por quilombolas. Eles põem fogo no espaço em torno das nascentes e das veredas que protegem o curso do rio. O objetivo é evitar que incêndios alcancem, no período da seca, a mata que protege as águas.

Entre os meses de abril e julho de 2023, brigadistas do Prevfogo, unidade do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Ibama) que atua no combate e prevenção de incêndios florestais, realizaram queimas conscientes em mais de 2 mil hectares dentro do quilombo.

Uso consciente do fogo é conhecimento ancestral Kalunga

Adotado pelos brigadistas há quase 10 anos, o uso consciente do fogo faz parte dos conhecimentos ancestrais do Território Kalunga, sétimo quilombo mais populoso do Brasil. No local, vivem aproximadamente 3.600 pessoas em 39 comunidades, que ocupam cerca de 261 mil hectares.

José Gabriel dos Santos Rocha, que é kalunga e supervisor da brigada local, contou que a queima do terreno sempre foi uma prática na comunidade.

Nossos antepassados já faziam essas queimas nos pontos estratégicos. Queimavam uma área, 2 anos depois queimavam outra área e iam remanejando o combustível. Isso sempre foi feito.

Por causa desse hábito, a antiga política de “fogo zero” sofreu resistência por parte dos moradores kalungas. A proibição total do uso do fogo foi adotada como regra pelos brigadistas desde a criação do Prevfogo em 2011, no município de Cavalcante.

Gabriel afirmou que, com a política de fogo zero, a vegetação acumulava excesso de material, que acabava se tornando combustível para incêndios florestais. Dessa forma, no período de seca, temperatura alta e umidade baixa, “os incêndios florestais ficavam difíceis de combater”, argumentou.

A diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Cerrado, Ane Alencar, destaca que, no Cerrado, o fogo faz parte da evolução biológica do bioma. Segundo a pesquisadora, existiu por muito tempo a ideia de que as chamas eram sempre ruins.

Isso vem de uma visão da Amazônia onde o fogo sempre foi visto como algo necessariamente ruim. Recentemente temos aprendido muito com a importância de se manejar o fogo de uma forma correta em ambientes adaptados ou dependentes do fogo. Isso é fundamental para o Cerrado e para reduzir o risco de catástrofes.

Manejo do fogo não foi bem recebido no início, relata servidor

Cássio Tavares, responsável pelo Prevfogo em Goiás, pontuou que a prática do manejo do fogo não foi bem recebida, no início, por parte de órgãos ambientais do Estado, da sociedade e da academia.

“Muitos foram taxados de loucos” por defender o método, contou o servidor do Ibama.

Em nota, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que faz a gestão do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, informou que o uso consciente do fogo pelo órgão começou entre 2012 e 2014, de forma experimental.

O manejo do fogo para prevenção de incêndios florestais no Brasil foi motivado pela “troca de experiência com outros países que apresentaram resultados positivos na realização de ações de manejo”, em especial, com a Austrália, conforme sustenta o ICMBio.

O Instituto citou, como exemplo de sucesso, o caso da Estação Ecológica da Serra Geral do Tocantins, onde os incêndios florestais despencaram após o início do manejo do fogo.

* Com informações da Agência Brasil

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