Desempenho estagnado há mais de uma década afeta milhões de estudantes e limita o crescimento econômico do país
Ano vai, ano vem, e o retrato da educação brasileira pouco muda quando o assunto é aprendizagem em matemática. O país voltou a figurar entre as últimas posições do ranking mundial da área, ocupando o 65º lugar entre 81 países avaliados na pesquisa mais recente — resultado muito próximo ao registrado 13 anos atrás, quando o Brasil aparecia na 57ª colocação. A estagnação escancara um problema estrutural que atravessa governos, políticas públicas e gerações de estudantes.
O impacto dessa defasagem vai muito além da sala de aula. A matemática está diretamente relacionada à capacidade de inovação, produtividade e crescimento econômico. Em países considerados desenvolvidos, setores intensivos em conhecimento matemático — como tecnologia, engenharia, finanças e indústria avançada — chegam a representar até 18% do Produto Interno Bruto. No Brasil, esse percentual não passa de 5%, evidenciando como a baixa proficiência limita o potencial econômico do país.
Os dados educacionais ajudam a explicar esse descompasso. Mais de 70% dos alunos brasileiros avaliados apresentaram desempenho considerado baixo em matemática, enquanto apenas 1% alcançou o nível de excelência. O número revela um sistema que falha tanto em garantir o aprendizado básico quanto em estimular talentos de alto desempenho, comprometendo a formação de mão de obra qualificada no médio e longo prazo.
O problema, no entanto, não pode ser atribuído apenas à falta de investimento ou às desigualdades sociais mais visíveis. A pesquisa mostra que nem mesmo os 25% mais ricos entre os estudantes brasileiros conseguiram superar a média mundial. Esse grupo ficou atrás do desempenho dos estudantes mais ricos de países como Vietnã e Turquia, o que reforça a percepção de que a crise é também pedagógica, curricular e de formação docente.
A dificuldade brasileira não se restringe às chamadas exatas. O desempenho do país também ficou abaixo da média internacional em outras áreas avaliadas. Em ciências, a defasagem foi de 82 pontos, enquanto em leitura o Brasil apresentou um atraso de 66 pontos em relação à média global. O conjunto dos resultados indica fragilidades generalizadas no processo de ensino e aprendizagem.
Especialistas apontam que a solução passa por uma combinação de fatores: revisão de métodos de ensino, valorização e formação contínua de professores, uso inteligente de tecnologia educacional e políticas de longo prazo que não sejam interrompidas a cada troca de gestão. Sem mudanças estruturais, o país corre o risco de perpetuar um ciclo de baixo desempenho escolar e baixo crescimento econômico.
Enquanto o mundo avança apoiado em ciência, tecnologia e inovação, o Brasil segue patinando em competências básicas. O alerta está dado há anos. A insistência nos mesmos resultados sugere que o maior desafio agora não é identificar o problema, mas transformar diagnósticos repetidos em ações efetivas.



